{"id":3373,"date":"2015-04-06T20:34:24","date_gmt":"2015-04-06T23:34:24","guid":{"rendered":"http:\/\/aacrimesc.com.br\/site\/?p=3373"},"modified":"2017-01-01T17:31:00","modified_gmt":"2017-01-01T19:31:00","slug":"o-caso-germanwings","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aacrimesc.org.br\/o-caso-germanwings\/","title":{"rendered":"O Caso Germanwings"},"content":{"rendered":"<p>Quinta-feira, 26 de Mar\u00e7o, estou em meu consult\u00f3rio e assisto a repercuss\u00e3o do caso Germawings tomar rumos diferentes na medida em que hip\u00f3teses de um co-piloto suicida surge na narrativa do caso. Essa afirma\u00e7\u00f5es baseadas em dois fatos concretos apresentados pela caixa preta do avi\u00e3o acidentado:<\/p>\n<p>1) O Comandante sai da cabine para ir ao banheiro e quando retorna, pede entrada a sala. A negativa que se sucede frente ao sil\u00eancio leva-o a tentar arrombar a porta. Em todos os casos, o piloto ficou trancado fora da cabine e n\u00e3o mais conseguiu acess\u00e1-la.<\/p>\n<p>2) \u00c9 poss\u00edvel ouvir a respira\u00e7\u00e3o do co-piloto ao longo de todo acontecimento, inclusive nos segundos finais da grava\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os questionamento todos se voltam ent\u00e3o \u00e0 pergunta: Por que o co-piloto Andreas Lubitz teria derrubado o avi\u00e3o? A resposta imediata nos notici\u00e1rios: Depressivo suicida. O que a psican\u00e1lise pode dizer disso ou no que ela pode auxiliar o debate?<\/p>\n<p>Jacques Lacan(1901-1981), grande psicanalista franc\u00eas, respons\u00e1vel pela releitura da obra de Freud nos trouxe o conceito de registros ps\u00edquicos: Real, Simb\u00f3lico e Imagin\u00e1rio. Segundo ele, o psiqu\u00edsmo humano se estabelece dentro destes tr\u00eas registros e por eles \u00e9 que o psicanalista tamb\u00e9m atua em seu trabalho de escuta. O Imagin\u00e1rio \u00e9 aquela compreens\u00e3o direta pelas imagens, o que vemos \u00e9 o que se pode dizer da coisa observada, exemplo: Fulano trabalha de terno e isso me apresenta a imagem de seriedade. O simb\u00f3lico trata da compreens\u00e3o por tr\u00e1s da imagem, diz dos signficantes de um objeto, exemplo: Fulano trabalha de bermudas, eu o conhe\u00e7o h\u00e1 dez anos e sei que seja de bermudas ou terno ele sempre realiza seu trabalho de forma magistral. O Real(que \u00e9 aquele que devemos nos atentar neste caso) \u00e9 o indiz\u00edvel, aquilo que se relaciona com a ang\u00fastia, o que n\u00e3o conseguimos nomear, tamb\u00e9m conhecido como &#8220;falta de ar&#8221;, &#8220;aperto no peito&#8221;.<\/p>\n<p>N\u00e3o posso afirmar que Andreas Lubitz era um depressivo e muito menos um terrorista. Em mat\u00e9ria de psicologia a quest\u00e3o fica muito prejudicada, pois o ideal da a\u00e7\u00e3o de um profissional do psiqu\u00edsmo humano se baseia na escuta e n\u00e3o nas proje\u00e7\u00f5es e hip\u00f3teses, estas que por sua vez se relacionam a uma compreens\u00e3o imagin\u00e1ria da situa\u00e7\u00e3o. Assim, n\u00e3o raro vermos na m\u00eddia, sempre ap\u00f3s cada trag\u00e9dia que eclode, algum especialista afirmando suas convic\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas da possibilidade de um &#8220;psicopata&#8221;, &#8220;suicida&#8221;, &#8220;depressivo&#8221;,&#8221;esquizofrenico&#8221; etc. Estas explica\u00e7\u00f5es por mais pr\u00e1ticas que sejam nunca conseguem passar ao telespectador a real profundidade do caso, pois quando falamos a respeito das quest\u00f5es subjetivas, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel adentrar a alguma complexidade baseado em achismos ou conversas r\u00e1pidas. Todavia, isso que se desenha no caso da Germanwings.<\/p>\n<p>Mas, o que aconteceu? Andreas Lubitz formou-se piloto pela escola da Lufthansa, cidad\u00e3o alem\u00e3o, n\u00e3o constava em listas de terrorismo e muito menos tinha qualquer passagem pela pol\u00edcia. Causa uma d\u00favida em todos os investigadores ao n\u00e3o demonstrar qualquer sinal de uma poss\u00edvel depress\u00e3o. Como bem disse Lacan, o Real \u00e9 da ordem do n\u00e3o simboliz\u00e1vel, \u00e9 aquilo que n\u00e3o conseguimos passar a palavra e assim ele n\u00e3o cessa de n\u00e3o se inscrever em n\u00f3s, est\u00e1 ali e n\u00e3o pode ser visto. O que mais perplexa a todos nesse caso \u00e9 a total falta de ind\u00edcios por parte de Andreas sobre qualquer coisa de seu \u00edntimo e que ningu\u00e9m nunca percebera. A\u00ed que a psican\u00e1lise d\u00e1 sua posi\u00e7\u00e3o. Quando pensamos em um suicida ou em um depressivo que passa ao ato, geralmente imaginamos uma hist\u00f3ria com in\u00edcio, meio e fim e assim basta um especialista para capt\u00e1-la e ent\u00e3o diagnostic\u00e1-la: &#8220;Aqui temos um depressivo, pois a quest\u00e3o x levou \u00e0 y&#8221;. Nos enganamos ao imaginar tal quadro.<\/p>\n<p>A marca de todos n\u00f3s sujeitos \u00e9 a nossa fragmenta\u00e7\u00e3o e a falta, desde nossa inf\u00e2ncia at\u00e9 nossa vida adulta o questionamento da completude nos interroga: &#8220;podia ser mais magra, mais alta, mais cabeluda, ter olhos azuis&#8221;. Por\u00e9m nunca estamos completos e com isso partimos numa incessante busca da coisa perdida. Alia-se a esta falta o surgimento de um Real na vida do sujeito e temos ai a possibilidade da passagem ao ato, ou seja, o sujeito traduz no mundo aquilo que est\u00e1 no seu \u00edntimo e ele n\u00e3o consegue dizer. Isso sempre \u00e9 imprevis\u00edvel. Ao n\u00e3o ser que alguma ponta dessa coisa amorfa subjetiva consiga tocar uma dimens\u00e3o de s\u00edmbolo e se traduzir em uma palavra, um pedido de socorro, uma tristeza, um discurso da tristeza, corremos sempre o risco de lidar com fatos inesperados. Eis que Freud nos demonstra seu brilhantismo, pois quando em Viena se deparou com pacientes hist\u00e9ricas com sintomas severos no corpo, as trouxe ao campo simb\u00f3lico, fazendo-as e deixando-as falar sobre seu problema. Fez-se assim o in\u00edcio da Psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>Talvez Andreas n\u00e3o tenha sido capaz de traduzir sua ang\u00fastia em palavra e assim passou ao ato, expressou no mundo sua cis\u00e3o. Foi irrespons\u00e1vel, pois o fez a custa de vidas inocentes. Aqui n\u00e3o o eximo de responsabilidade, seu ato causou dor ao outro e se vivo estivesse deveria sofrer o devido processo. Entretanto, n\u00e3o \u00e9 a parte jur\u00eddica que nos interessa enquanto Psic\u00f3logos, mas sim conseguir passar ao p\u00fablico a complexidade do universo \u00edntimo de cada um e como estes as vezes tomam rumos inesperados, inexplic\u00e1veis e chocantes. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas, o mist\u00e9rio da subjetividade humana sempre existir\u00e1.<\/p>\n<p>A grande quest\u00e3o \u00e9 que muitos outros podem estar por a\u00ed com suas ang\u00fastias guardadas, em sofrimento mas sem conseguir diz\u00ea-lo. A todos estes, saibam que existe um profissional preparado a escut\u00e1-lo seja na sua palavra ou no seu gesto. Acima de tudo, n\u00e3o devemos nunca tomar de forma t\u00e3o simples as motiva\u00e7\u00f5es do outro, pois este mesmo outro pode ter muito mais de n\u00f3s do que jamais saberemos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quinta-feira, 26 de Mar\u00e7o, estou em meu consult\u00f3rio e assisto a repercuss\u00e3o do caso Germawings tomar rumos diferentes na medida em que hip\u00f3teses de um co-piloto<span class=\"excerpt-hellip\"> [\u2026]<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-3373","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos"],"acf":[],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aacrimesc.org.br\/json\/wp\/v2\/posts\/3373","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/aacrimesc.org.br\/json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aacrimesc.org.br\/json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aacrimesc.org.br\/json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aacrimesc.org.br\/json\/wp\/v2\/comments?post=3373"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/aacrimesc.org.br\/json\/wp\/v2\/posts\/3373\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aacrimesc.org.br\/json\/wp\/v2\/media?parent=3373"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aacrimesc.org.br\/json\/wp\/v2\/categories?post=3373"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aacrimesc.org.br\/json\/wp\/v2\/tags?post=3373"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}