{"id":8293,"date":"2021-03-29T10:06:59","date_gmt":"2021-03-29T13:06:59","guid":{"rendered":"https:\/\/aacrimesc.org.br\/?p=8293"},"modified":"2021-03-29T10:07:00","modified_gmt":"2021-03-29T13:07:00","slug":"a-conduta-do-reu-de-opor-se-fornecer-ao-juizo-seus-dados-bancarios-existentes-no-exterior-constitui-crime-de-desobediencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aacrimesc.org.br\/a-conduta-do-reu-de-opor-se-fornecer-ao-juizo-seus-dados-bancarios-existentes-no-exterior-constitui-crime-de-desobediencia\/","title":{"rendered":"A conduta do r\u00e9u de opor-se fornecer ao ju\u00edzo seus dados banc\u00e1rios existentes no exterior, constitui crime de desobedi\u00eancia?"},"content":{"rendered":"\n<p>O famigerado direito ao sil\u00eancio, positivado no artigo 5\u00ba, LXIII da <a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/constituicao\/ConstituicaoCompilado.htm\">Carta Maior<\/a><sup>1<\/sup>, apresenta-se como uma das decorr\u00eancias do princ\u00edpio <strong><em>nemo tenetur se detegere<\/em><\/strong>. Nas palavras de Maria Elizabeth Queijo<sup>2<\/sup>, o aludido princ\u00edpio &#8220;<em>tem sido considerado direito fundamental do cidad\u00e3o e, mais especificamente, do acusado. Cuida-se do direito \u00e0 n\u00e3o auto-incrimina\u00e7\u00e3o, que assegura esfera de liberdade ao indiv\u00edduo, opon\u00edvel ao Estado, que n\u00e3o se resume ao direito ao sil\u00eancio<\/em>.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Superada a breve elucida\u00e7\u00e3o contextual do princ\u00edpio preconizado pelo artigo 8\u00ba, 2, &#8220;g&#8221;, da Conven\u00e7\u00e3o Americana de Direitos Humanos<sup>3<\/sup>, surge o seguinte questionamento: a conduta do r\u00e9u de opor-se fornecer ao ju\u00edzo seus dados banc\u00e1rios existentes no exterior, constitui crime de desobedi\u00eancia?<\/p>\n\n\n\n<p>Aury Lopes Jr., diga-se, de maneira pontual\u00edssima, leciona que o &#8220;<em>direito de sil\u00eancio \u00e9 apenas uma manifesta\u00e7\u00e3o de uma garantia muito maior, esculpida no princ\u00edpio nemo tenetur se detegere, segundo a qual <strong><u>o sujeito passivo n\u00e3o pode sofrer nenhum preju\u00edzo jur\u00eddico por omitir-se de colaborar em uma atividade probat\u00f3ria da acusa\u00e7\u00e3o <\/u><\/strong>ou por exercer seu direito de sil\u00eancio quando interrogado<\/em>&#8220;.<sup>4<\/sup> (Grifei)<\/p>\n\n\n\n<p>Na mesma esteira, Alberto Zacharias Toron<sup>5<\/sup>, de modo cl\u00ednico, real\u00e7a que a guarita contra a autoincrimina\u00e7\u00e3o significa, num todo, &#8220;<em>a afirma\u00e7\u00e3o de que a pessoa n\u00e3o est\u00e1 obrigada a produzir prova contra si mesma<\/em>.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Em suma, o direito \u00e0 n\u00e3o autoincrimina\u00e7\u00e3o \u00e9 um direito individual, humano e fundamental, de observ\u00e2ncia inescus\u00e1vel no processo penal. N\u00e3o \u00e9 exequ\u00edvel compelir o ser humano a agir contra sua pr\u00f3pria vontade, o que, caso acontecesse na pr\u00e1tica, violaria por completo a integridade mental e moral do r\u00e9u.<\/p>\n\n\n\n<p>Na hip\u00f3tese, a negativa do r\u00e9u em fornecer ao ju\u00edzo seus dados banc\u00e1rios estabelecidos no exterior, n\u00e3o constitui a conduta t\u00edpica insculpida no artigo 330 do <a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/decreto-lei\/del2848compilado.htm\">C\u00f3digo Penal<\/a>, haja vista que, se assim fosse, estar-se-ia transgredindo a natureza humana e, portanto, a dignidade do acusado, transferindo-o o \u00f4nus que compete integralmente ao Estado-acusa\u00e7\u00e3o, subvertendo a l\u00f3gica do processo penal acusat\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Ora, for\u00e7ar o acusado a propiciar ao ju\u00edzo seus dados sigilosos, abre indiscut\u00edvel margem para que se origine m\u00faltiplas consequ\u00eancias negativas, haja vista que, nesta etapa, o polo passivo da a\u00e7\u00e3o penal pode optar por manter-se em sil\u00eancio, confessar, se autoincriminar ou n\u00e3o e, por fim, at\u00e9 mesmo mentir, com fundamento no princ\u00edpio da m\u00e1xima efetividade dos direitos fundamentais.<\/p>\n\n\n\n<p>Simplificando, ao preferir permanecer em sil\u00eancio e n\u00e3o se autoincriminar, o r\u00e9u estar\u00e1 agindo no exerc\u00edcio regular de um cristalino direito constitucional, logo, n\u00e3o poder\u00e1 o magistrado imputar ao acusado a pr\u00e1tica do delito de desobedi\u00eancia, com fundamento no artigo 23, inciso III, do C\u00f3digo Penal.<sup>6<\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>Ademais, a Lei Processual tamb\u00e9m efetiva o direito ao sil\u00eancio em seu artigo 186<sup>7<\/sup>, tonificando que este n\u00e3o ser\u00e1 manipulado juridicamente em desfavor do r\u00e9u. No mesmo sentido \u00e9 a jurisprud\u00eancia do e. Supremo Tribunal Federal, a exemplo dos seguintes precedentes: <strong>HC 79.589\/DF;<\/strong><sup>8 <\/sup><strong>HC 73.035\/DF;<\/strong><sup>9<\/sup><strong> HC 79.244\/DF;<\/strong><sup>10<\/sup><strong> HC 101.909\/MG;<\/strong><sup>11<\/sup><strong> HC 79.812\/SP.<\/strong><sup>12<\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>Sem mais delongas, \u00e9 cristalino que o direito ao sil\u00eancio denota-se elemento inexor\u00e1vel que comp\u00f5e a autodefesa do r\u00e9u, decorrente do supracitado princ\u00edpio <em>nemo tenetur se detegere<\/em>, que possui esteio legal tanto na Conven\u00e7\u00e3o Americana de Direitos Humanos (OEA) como no Pacto Internacional dos Direitos Civis e Pol\u00edticos (ONU).<\/p>\n\n\n\n<p>Por derradeiro, \u00e9 cedi\u00e7o que atribuir ao r\u00e9u a pr\u00e1tica do delito capitulado no artigo 330 do C\u00f3digo Penal, na hip\u00f3tese de opor-se apresentar seus dados banc\u00e1rios estabelecidos no exterior, o magistrado estaria barganhando sua compet\u00eancia de autoridade no procedimento criminal, trocando-a, lamentavelmente, pela conveni\u00eancia cinzelada no ran\u00e7o inculcado por aquilo que mais se teme no cen\u00e1rio processual penal contempor\u00e2neo, isto \u00e9, o autoritarismo.<\/p>\n\n\n\n<p>_________<\/p>\n\n\n\n<p><strong><u>1<\/u><\/strong> LXIII &#8211; o preso ser\u00e1 informado de seus direitos, entre os quais o de permanecer calado, sendo-lhe assegurada a assist\u00eancia da fam\u00edlia e de advogado; Dispon\u00edvel <a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/constituicao\/constituicao.htm\">clicando aqui<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong><u>2<\/u><\/strong> QUEIJO, Maria Elizabeth. O direito de n\u00e3o produzir prova contra si mesmo (o princ\u00edpio nemo tenetur se detegere e suas decorr\u00eancias no processo penal). S\u00e3o Paulo: Saraiva, 2003.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><u>3<\/u><\/strong> 2. Toda pessoa acusada de delito tem direito a que se presuma sua inoc\u00eancia enquanto n\u00e3o se comprove legalmente sua culpa.&nbsp; Durante o processo, toda pessoa tem direito, em plena igualdade, \u00e0s seguintes garantias m\u00ednimas: g. direito de n\u00e3o ser obrigado a depor contra si mesma, nem a declarar-se culpada; Dispon\u00edvel <a href=\"https:\/\/www.cidh.oas.org\/basicos\/portugues\/c.convencao_americana.htm\">clicando aqui<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong><u>4<\/u><\/strong> LOPES JUNIOR, Aury. Direito Processual Penal. S\u00e3o Paulo: Saraiva, 2017, p. 446.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><u>5<\/u><\/strong> TORON, Alberto Zacharias. Habeas Corpus e o Controle do Devido Processo Legal: Quest\u00f5es Controvertidas e de Processamento do Writ. 2\u00aa ed., revista atualizada e ampliada. Revista dos Tribunais, 2018, p. 64.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><u>6<\/u><\/strong> Art. 23 &#8211; N\u00e3o h\u00e1 crime quando o agente pratica o fato: III &#8211; em estrito cumprimento de dever legal ou no exerc\u00edcio regular de direito. (Grifei). Dispon\u00edvel <a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/decreto-lei\/del2848compilado.htm\">clicando aqui<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong><u>7<\/u><\/strong> Art. 186. Depois de devidamente qualificado e cientificado do inteiro teor da acusa\u00e7\u00e3o, o acusado ser\u00e1 informado pelo juiz, antes de iniciar o interrogat\u00f3rio, do seu direito de permanecer calado e de n\u00e3o responder perguntas que lhe forem formuladas. Par\u00e1grafo \u00fanico. O sil\u00eancio, que n\u00e3o importar\u00e1 em confiss\u00e3o, n\u00e3o poder\u00e1 ser interpretado em preju\u00edzo da defesa. Dispon\u00edvel <a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/decreto-lei\/del3689compilado.htm\">clicando aqui<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong><u>8<\/u><\/strong> BRASIL. Supremo Tribunal Federal. HC 79.589\/DF. Relator: MIN. OCTAVIO GALLOTTI. Dispon\u00edvel <a href=\"https:\/\/portal.stf.jus.br\/processos\/detalhe.asp?incidente=1782940\">clicando aqui<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong><u>9<\/u><\/strong> BRASIL. Supremo Tribunal Federal. HC 73.035\/DF. Relator: MIN. CARLOS VELLOSO. Dispon\u00edvel <a href=\"https:\/\/portal.stf.jus.br\/processos\/detalhe.asp?incidente=1623524\">clicando aqui<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong><u>10<\/u><\/strong> BRASIL. Supremo Tribunal Federal. HC 79.244\/DF. Relator: MIN. SEP\u00daLVEDA PERTENCE. Dispon\u00edvel <a href=\"https:\/\/portal.stf.jus.br\/processos\/detalhe.asp?incidente=1759094\">clicando aqui<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong><u>11<\/u><\/strong> BRASIL. Supremo Tribunal Federal. HC 101.909\/MG. Relator: MIN. AYRES BRITTO. Dispon\u00edvel <a href=\"https:\/\/portal.stf.jus.br\/processos\/detalhe.asp?incidente=3810143\">clicando aqui<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong><u>12<\/u><\/strong> BRASIL. Supremo Tribunal Federal. HC 79.812\/SP. Relator: MIN. CELSO DE MELLO. Dispon\u00edvel <a href=\"https:\/\/portal.stf.jus.br\/processos\/detalhe.asp?incidente=1794088\">clicando aqui<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O famigerado direito ao sil\u00eancio, positivado no artigo 5\u00ba, LXIII da Carta Maior1, apresenta-se como uma das decorr\u00eancias do princ\u00edpio nemo tenetur se detegere. 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