{"id":8935,"date":"2021-09-09T18:15:52","date_gmt":"2021-09-09T21:15:52","guid":{"rendered":"https:\/\/aacrimesc.org.br\/?p=8935"},"modified":"2021-09-09T18:15:56","modified_gmt":"2021-09-09T21:15:56","slug":"efeitos-legislativos-negativos-do-anpp","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aacrimesc.org.br\/efeitos-legislativos-negativos-do-anpp\/","title":{"rendered":"Efeitos legislativos negativos do ANPP"},"content":{"rendered":"\n<p>A Lei 13.964\/19 trouxe significativas mudan\u00e7as na legisla\u00e7\u00e3o penal e processual penal brasileira. Dentre as mais importantes altera\u00e7\u00f5es, destaca-se a possibilidade de realiza\u00e7\u00e3o de Acordo de N\u00e3o Persecu\u00e7\u00e3o Penal (ANPP), entre Minist\u00e9rio P\u00fablico e investigado, nas infra\u00e7\u00f5es penais cometidas sem viol\u00eancia ou grave amea\u00e7a e com pena m\u00ednima inferior a 4 (quatro) anos, cumprida uma s\u00e9rie de outros requisitos objetivos e subjetivos, previstos no artigo 28-A do chamado Pacote Anticrime.<\/p>\n\n\n\n<p>Em que pesem algumas pol\u00eamicas acerca de alguns de seus requisitos (em especial a necessidade de confiss\u00e3o), bem como discuss\u00f5es sobre de sua natureza e o momento processual adequado para sua realiza\u00e7\u00e3o, o novo instituto despenalizador foi visto como inova\u00e7\u00e3o legislativa bastante positiva, j\u00e1 que efetuou verdadeira desburocratiza\u00e7\u00e3o do processo penal atrav\u00e9s de uma \u201cdespenaliza\u00e7\u00e3o\u201d, trazendo uma resposta estatal mais c\u00e9lere e ao mesmo tempo satisfazendo a vontade da v\u00edtima no que tange a eventual necessidade de repara\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se pode ignorar, ainda, que o novo instituto tem forte atua\u00e7\u00e3o na diminui\u00e7\u00e3o da superlota\u00e7\u00e3o nos pres\u00eddios, canalizando as for\u00e7as estatais para a preven\u00e7\u00e3o e puni\u00e7\u00e3o de crimes mais graves.<\/p>\n\n\n\n<p>O que parece n\u00e3o ter sido previsto, no entanto, foram as consequ\u00eancias negativas que a materializa\u00e7\u00e3o do Acordo de N\u00e3o Persecu\u00e7\u00e3o Penal poderia causar em futuras reformas legislativas, principalmente no que tange ao aumento da pena de alguns crimes j\u00e1 existentes e atribui\u00e7\u00e3o da pena em novos delitos. O legislador, ao criar novos tipos penais, ou elevar a pena de crimes j\u00e1 existentes, parece ter levado em conta requisito objetivo do ANPP (pena m\u00ednima inferior a 4 anos), fixando a pena m\u00ednima em 4 anos de reclus\u00e3o quando destas altera\u00e7\u00f5es, de modo a impossibilitar a realiza\u00e7\u00e3o do acordo em crimes que entende ser de gravidade m\u00e9dia\/alta.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Lei 14.155\/21, por exemplo, os crimes de furto mediante fraude e estelionato virtual (fraude eletr\u00f4nica) tiveram suas penas aumentadas para 4 a 8 anos de reclus\u00e3o. Considerando que as penas de furto e estelionato na modalidade simples t\u00eam pena m\u00ednima de 1 ano, nos parece evidente a preocupa\u00e7\u00e3o do legislador em elevar a pena m\u00ednima em patamar superior \u00e0quele previsto como requisito objetivo para a realiza\u00e7\u00e3o do Acordo de N\u00e3o Persecu\u00e7\u00e3o Penal, justamente para inviabilizar a aplica\u00e7\u00e3o do novo instituto.<\/p>\n\n\n\n<p>Os novos crimes em licita\u00e7\u00f5es, inseridos no C\u00f3digo Penal a partir da Lei 14.133\/21 (Nova Lei de licita\u00e7\u00f5es e contratos administrativos), tamb\u00e9m sofreram significativo aumento de pena, prevendo a maioria deles uma pena de 4 a 8 anos de reclus\u00e3o, de modo a impossibilitar o ANPP em quase todos os crimes licitat\u00f3rios, demonstrando uma certa tend\u00eancia nos novos par\u00e2metros adotados pelo legislador.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem adentrar no m\u00e9rito da razoabilidade o <em>quantum<\/em> da pena a ser aplicada para cada um destes crimes, que nos preocupa \u00e9 que tal pr\u00e1tica vire tend\u00eancia legislativa populista, de forma a atender anseios meramente punitivistas, que n\u00e3o representam de fato a realidade f\u00e1tica social daquele tipo penal.<\/p>\n\n\n\n<p>Tememos, portanto, uma desvirtua\u00e7\u00e3o do novo instituto, com base em falsos pressupostos, de modo a criar obst\u00e1culos desnecess\u00e1rios \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o do ANPP, em vez de trabalhar em seu aperfei\u00e7oamento. As novas altera\u00e7\u00f5es legislativas, quando motivadas por ideias punitivistas, podem fazer com que o novo instituto perca parte de seu objeto, n\u00e3o cumprindo com as finalidades para qual foi constitu\u00eddo.<\/p>\n\n\n\n<p>Propomos, assim, maior zelo com a pol\u00edtica criminal adotada quando da institui\u00e7\u00e3o do Acordo de N\u00e3o Persecu\u00e7\u00e3o Penal, de forma a assegurar a devida motiva\u00e7\u00e3o e razoabilidade na cria\u00e7\u00e3o de novos tipos penais e altera\u00e7\u00f5es de pena para maior, para manuten\u00e7\u00e3o dos benef\u00edcios j\u00e1 alcan\u00e7ados com o novo instituto despenalizador e seu desenvolvimento.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Lei 13.964\/19 trouxe significativas mudan\u00e7as na legisla\u00e7\u00e3o penal e processual penal brasileira. 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