O Advogado Criminalista e a Síndrome de Dom Quixote

O advogado criminalista padece de uma enfermidade congênita e incurável, na acurada visão do poeta, a famigerada síndrome de Dom Quixote.Miguel de Cervantes, em sua imortal obra, a par de estar falando sobre a tão sonhada e desejada utopia, ao que tudo indica não só era um sublime escritor, mas acima de tudo um grande visionário.

As peripécias de sua personagem, o célebre cavaleiro errante Dom Quixote de La Mancha, não só se assemelham como parecem ser uma descrição literal e atualíssima do que ocorre diuturnamente com os abnegados advogados criminalistas.

As desventuras narradas pelo cavaleiro e seu fiel escudeiro Sancho Pança, em especial a luta contra os moinhos de vento, remete a labuta diária dos perseverantes causídicos que insistem em combater o sistema de justiça criminal sabidamente seletivo e muitas vezes injusto.

Diversos são os exemplos que demonstram a referida assertiva, bastando verificar que, não obstante o estado de inocência constitucionalmente previsto, passados mais de 30 anos da promulgação da Constituição Federal, a presunção que parece reger uma grande parte das decisões em processos criminais é da culpabilidade daquele que é submetido a uma persecução penal.Os criminalistas lutam desigualmente contra moinhos de vento e a chance de sucesso é ínfima, mas não se deixam arrefecer, como o fidalgo de Cervantes em seu desmilinguido Rocinante.

Continuam insistentemente labutando e enfrentando os gigantes do preconceito, da intolerância, do prejulgamento e muitos outros que assolam aqueles que são subjugados pela engrenagem do processo penal, inocentes ou não.

É triste notar que uma das maiores utopias é a garantia do devido processo penal, tanto o meramente formal quanto o material ou substancial.O sonho com um ideal de justiça é a mesma fantasia do cavalheiro que tenta constantemente encontrar sua amada Dulcinéia, encarnação da beleza e da virtude.

Por isso, que os criminalistas continuem a ser Quixotes, acreditando que vale a pena lutar por uma sociedade mais justa e igualitária, pois, ainda que a vitória seja utópica, como sentenciou o filósofo, a utopia nos faz seguir adiante.