Quinta-feira, 26 de Março, estou em meu consultório e assisto a repercussão do caso Germawings tomar rumos diferentes na medida em que hipóteses de um co-piloto suicida surge na narrativa do caso. Essa afirmações baseadas em dois fatos concretos apresentados pela caixa preta do avião acidentado:

1) O Comandante sai da cabine para ir ao banheiro e quando retorna, pede entrada a sala. A negativa que se sucede frente ao silêncio leva-o a tentar arrombar a porta. Em todos os casos, o piloto ficou trancado fora da cabine e não mais conseguiu acessá-la.

2) É possível ouvir a respiração do co-piloto ao longo de todo acontecimento, inclusive nos segundos finais da gravação.

Os questionamento todos se voltam então à pergunta: Por que o co-piloto Andreas Lubitz teria derrubado o avião? A resposta imediata nos noticiários: Depressivo suicida. O que a psicanálise pode dizer disso ou no que ela pode auxiliar o debate?

Jacques Lacan(1901-1981), grande psicanalista francês, responsável pela releitura da obra de Freud nos trouxe o conceito de registros psíquicos: Real, Simbólico e Imaginário. Segundo ele, o psiquísmo humano se estabelece dentro destes três registros e por eles é que o psicanalista também atua em seu trabalho de escuta. O Imaginário é aquela compreensão direta pelas imagens, o que vemos é o que se pode dizer da coisa observada, exemplo: Fulano trabalha de terno e isso me apresenta a imagem de seriedade. O simbólico trata da compreensão por trás da imagem, diz dos signficantes de um objeto, exemplo: Fulano trabalha de bermudas, eu o conheço há dez anos e sei que seja de bermudas ou terno ele sempre realiza seu trabalho de forma magistral. O Real(que é aquele que devemos nos atentar neste caso) é o indizível, aquilo que se relaciona com a angústia, o que não conseguimos nomear, também conhecido como “falta de ar”, “aperto no peito”.

Não posso afirmar que Andreas Lubitz era um depressivo e muito menos um terrorista. Em matéria de psicologia a questão fica muito prejudicada, pois o ideal da ação de um profissional do psiquísmo humano se baseia na escuta e não nas projeções e hipóteses, estas que por sua vez se relacionam a uma compreensão imaginária da situação. Assim, não raro vermos na mídia, sempre após cada tragédia que eclode, algum especialista afirmando suas convicções teóricas da possibilidade de um “psicopata”, “suicida”, “depressivo”,”esquizofrenico” etc. Estas explicações por mais práticas que sejam nunca conseguem passar ao telespectador a real profundidade do caso, pois quando falamos a respeito das questões subjetivas, não é possível adentrar a alguma complexidade baseado em achismos ou conversas rápidas. Todavia, isso que se desenha no caso da Germanwings.

Mas, o que aconteceu? Andreas Lubitz formou-se piloto pela escola da Lufthansa, cidadão alemão, não constava em listas de terrorismo e muito menos tinha qualquer passagem pela polícia. Causa uma dúvida em todos os investigadores ao não demonstrar qualquer sinal de uma possível depressão. Como bem disse Lacan, o Real é da ordem do não simbolizável, é aquilo que não conseguimos passar a palavra e assim ele não cessa de não se inscrever em nós, está ali e não pode ser visto. O que mais perplexa a todos nesse caso é a total falta de indícios por parte de Andreas sobre qualquer coisa de seu íntimo e que ninguém nunca percebera. Aí que a psicanálise dá sua posição. Quando pensamos em um suicida ou em um depressivo que passa ao ato, geralmente imaginamos uma história com início, meio e fim e assim basta um especialista para captá-la e então diagnosticá-la: “Aqui temos um depressivo, pois a questão x levou à y”. Nos enganamos ao imaginar tal quadro.

A marca de todos nós sujeitos é a nossa fragmentação e a falta, desde nossa infância até nossa vida adulta o questionamento da completude nos interroga: “podia ser mais magra, mais alta, mais cabeluda, ter olhos azuis”. Porém nunca estamos completos e com isso partimos numa incessante busca da coisa perdida. Alia-se a esta falta o surgimento de um Real na vida do sujeito e temos ai a possibilidade da passagem ao ato, ou seja, o sujeito traduz no mundo aquilo que está no seu íntimo e ele não consegue dizer. Isso sempre é imprevisível. Ao não ser que alguma ponta dessa coisa amorfa subjetiva consiga tocar uma dimensão de símbolo e se traduzir em uma palavra, um pedido de socorro, uma tristeza, um discurso da tristeza, corremos sempre o risco de lidar com fatos inesperados. Eis que Freud nos demonstra seu brilhantismo, pois quando em Viena se deparou com pacientes histéricas com sintomas severos no corpo, as trouxe ao campo simbólico, fazendo-as e deixando-as falar sobre seu problema. Fez-se assim o início da Psicanálise.

Talvez Andreas não tenha sido capaz de traduzir sua angústia em palavra e assim passou ao ato, expressou no mundo sua cisão. Foi irresponsável, pois o fez a custa de vidas inocentes. Aqui não o eximo de responsabilidade, seu ato causou dor ao outro e se vivo estivesse deveria sofrer o devido processo. Entretanto, não é a parte jurídica que nos interessa enquanto Psicólogos, mas sim conseguir passar ao público a complexidade do universo íntimo de cada um e como estes as vezes tomam rumos inesperados, inexplicáveis e chocantes. Não há dúvidas, o mistério da subjetividade humana sempre existirá.

A grande questão é que muitos outros podem estar por aí com suas angústias guardadas, em sofrimento mas sem conseguir dizê-lo. A todos estes, saibam que existe um profissional preparado a escutá-lo seja na sua palavra ou no seu gesto. Acima de tudo, não devemos nunca tomar de forma tão simples as motivações do outro, pois este mesmo outro pode ter muito mais de nós do que jamais saberemos.